NÃO CHOVE

Vi um homem que ia para a roça com a enxada ao ombro. Mentira! O camponês não usa mais enxadas, há máquinas motorizadas que passam lâminas na terra e há veneno químico que não deixa o mato crescer. Mas vi um homem que ia para roça apreensivo, olhava com certo temor a terra seca a espera de arado. Não chove.

Já escrevi sobre chuvas, sobre tempestades, enxurradas nas sarjetas e o assunto era bem mais abundante. Na falta de coisa melhor, até os guarda-chuvas já ocuparam esta página e a paciência do leitor. Agora me vejo escrevendo sobre a não-chuva, assunto escasso, que sugere racionamento e pouca fartura.

O homem da lavoura espera a chuva para colher grãos e vender para a indústria de beneficiamento, o homem que engorda o gado espera a chuva para não vender o animal ainda magro, o homem que tira leite não sabe mais o que fazer para alimentar as vacas, o homem que planta horta não tem como irrigar a plantação. O pescador não lança a rede no rio porque o peixe desceu a correnteza e fugiu na vertente em busca de águas mais fundas e o homem do comércio se desanima porque o homem da roça não vem comprar.

Não há governador que dê jeito, não tem prefeito em qualquer parte deste Estado por mais empreendedor e articulado que seja, que realize a obra da chuva. São Pedro, o chefe das torneiras do céu, não faz concessões políticas nem dá privilégio a aliados; todos tem de esperar na fila. Os mais prudentes construíram reservatórios, canalizaram represas, os imprudentes nem isso. O Estado de São Paulo vive dias de Nordeste, Asa Branca bateu asas e o verde dos olhos de Rosinha não se espalha na plantação.

Embaixo das pontes os rios agonizam, pulsam veias quase secas. As pontes ficaram inúteis, os rios são transponíveis a cavalo ou mesmo com os pés no chão. Há bancos de areia nas margens e o leito carrega muitos açores e pouca água. Água que não chega na represa, represa que não abastece reservatórios, reservatórios que não distribuem nas cidades, torneiras que secam.

Vi um homem na cidade lavando o carro na calçada. Mentira! O homem da cidade anda tão apreensivo quanto o homem  da roça. Ainda que haja piscinas transbordando no fundo das mansões, o homem comum da cidade já deixou de lavar o carro, encurtou o banho e faz a barba duas vezes por semana. O homem da cidade é vilão das águas, assim como é vilão da energia elétrica, porque as tem ao alcance da mão, num simples toque dos dedos, mas ele está solidário com o homem da roça e também é protagonista da nova ordem do mundo: o uso sem abuso, na tentativa de reequilibrar o sistema natural do planeta.

O homem da cidade conversa com o homem da roça e os dois falam do tempo, esse assunto milenar entre as pessoas sem assunto; Falam das nuvens que negam a chuva, do trovão que arrebenta a nuvem, do céu que abre de novo sem cair uma gota. O homem da cidade fala em meteorologia, previsões de temperatura, frente fria. O homem da roça fala da estiagem e diz que ouviu um pássaro piar na mata: “chuva certa quando ele canta!” E volta para casa cheio de esperança.

 Angelo Humberto Anccilotto (Ago/2014)