MEU LIMÃO, MEU LIMOEIRO

Um dos sabores profundos da infância é o de limonada. Daquelas que a gente ia ao fundo do quintal, apanhava um limão – desses limões bravos, comuns – espremia num copo d’água, colocava açúcar e bebia. Se houvesse gelo em casa, melhor. E se adicionasse bicarbonato, aí que os nossos olhinhos infantis se arregalavam mesmo.  A molecada de hoje não faz isso, vai à padaria mais próxima e compra três litros de limonada engarrafada e bebe até se esbaldar.

Descobria-se depois que limonada ainda melhor era aquela feita com limão galego. E depois, já adulto, descobria-se que a melhor caipirinha também se fazia com limão galego. Confesso que sempre tive alta estima por essa “qualidade” de limão, como se diz na roça. Mas o limão galego há muito tempo sofreu uma rigorosa perseguição.  Que Deus me perdoe por essa comparação, mas ter um pé de limão galego em casa há quarenta anos era como portar o vírus ebola hoje. O limão galego era portador do cancro cítrico, doença que se espalhava nos pomares e acabava com as frutas do mesmo gênero, inclusive os vastos laranjais da região de Bebedouro. Conheci um homem do sítio que não atendeu às ordens do Ministério da Agricultura de cortar a planta que tinha em casa, até que um dia desembarcaram na sua porta vários homens da Casa da Lavoura, munidos de machado e escavadeira, cortaram os galhos, cavaram em volta do tronco e cortaram as raízes para que nunca mais brotasse.  E eu fui punido por muitos e muitos anos sem poder beber limonada ou caipirinha de limão de galego.

Mas o destino quis que em minha nova casa ( o que não é o mesmo que casa nova) houvesse um pé de limão galego perto do muro no fundo do quintal. É um limoeiro antigo que andava abafado por duas touceiras dessas palmeiras baixas e de muitas folhas. O antigo proprietário não tinha zelo por ele, mas podei as palmeiras e deixei-o exposto a luz do sol, o que melhorou um pouco a sua aparência triste de folhas amareladas. Sentindo que ainda podia fazer mais por ele, fui à casa agropecuária e perguntei por um fertilizante para limão. O rapaz da loja me perguntou quantas toneladas eu iria querer e eu respondi humildemente que apenas um saquinho com duzentos ou trezentos gramas. Ele virou-me as costas com reprovação, eu não era o fazendeiro latifundiário que ele imaginava.

Apliquei o fertilizante ao redor do tronco antes da florada e vi que tanto as flores como as folhas tinham viço e prometiam boa colheita. Passada a florada, fiz uma coisa que não se deve fazer, segundo a crendice popular: contei os limõezinhos que haviam vingado. Se não contei em duplicidade ou esqueci algum, são dezesseis frutos que estão começando a crescer. Essa quantidade é suficiente para que daqui a três meses eu possa beber um copo de limonada e outro de caipirinha.  É uma coisa banal eu sei, mas eu olho para o meu pé de limão galego no fundo do quintal com o mesmo orgulho de alguém que fosse entupir o Porto de Roterdã com milhares de barris de suco congelado. Eu sou, de repente, o maior exportador de limão da América do Sul.

Angelo Humberto Anccilotto (Nov/2014)